Oferenda (2)
Quando o dirigente espiritual diz: “Meu filho, você precisa fazer uma oferenda”. Não importa se é para um orixá ou para uma entidade, nossa resposta costumeira é: “pra que dia, Pai Leopold?”, e ele responde: “para ontem, meu filho”.
E nosso pensamento avalia: “nossa, devo estar carregado mesmo!” Ou, “não devo estar em sintonia com o meu guia espiritual”. Esquecemos de considerar o real significado de uma oferenda, de uma entrega, que é o de presentear, de entregar, de renunciar-se, atos esses que só podem ser feitos de forma altruísta.
Quando selecionamos os itens para uma oferenda, são necessários materiais que tenham a representação dos quatro elementos básicos universais: água, terra, fogo e ar. Esses são elementos primários que participam da formação do nosso planeta, assim como da nossa constituição física.
Ou seja, se quero pedir algo ao universo, é de bom alvitre que eu manipule substâncias que tenham energia semelhante ao que quero rogar. Sabemos que tudo é energia, então, se queremos pedir um bom emprego, um bom relacionamento, saúde, clareza mental, maturidade emocional, os elementos a serem trabalhados estão no astral e, para os nossos olhos, eles se aglomeram e se combinam, resultando na matéria que vemos e tocamos.
As bebidas, fumos, elementos naturais (flores, frutas), tudo representa a parte concreta do ritual que é percebida pelos nossos olhos da carne e que desperta, através do consciente, o nosso inconsciente, que, por sua vez, vai condensar e plasmar toda a energia necessária para o que queremos pedir.
Esse é o momento de entrarmos em prece e sintonizarmo-nos com a espiritualidade amiga para que ela capte o que desejamos e nos abasteça com os nutrientes astrais necessários para alcançarmos o que buscamos.
Parece algo simples, não é mesmo? Mas, nem sempre, sentimos a energia fluir tão solta nesses momentos. Estamos carregados emocionalmente, psicologicamente, fisicamente, por pensamentos e atitudes de baixo calão. Contaminamo-nos com hábitos e palavras negativas que afastam de nós as boas influências.
Por isso, costumamos ouvir que: só recebe aquele que tem merecimento. Afinal, não tem como o universo conspirar ao nosso favor por meio de elementos tão nobres, quando na verdade estamos poluídos pelas nossas cargas astrais.
A questão, muitas vezes, não é a demanda de terceiros. Mas sim a “autodemanda” que fazemos, o cultivo do adoecimento energético através das nossas crenças negativas.
Quando damos algo de presente a alguém, fazemos de coração aberto. Esperançosos que o outro goste, que se sinta feliz, lembrado, cuidado. Essa é a energia do amor. E é ela que devemos buscar quando vamos realizar uma oferenda. É um momento de entrega mental e física. Esteja de corpo e alma para que, após pedir, você perceba os sinais que Deus enviará para que alcance o que almeja.
Aí está a renúncia: desfazermo-nos de nossas amarras mentais, dos nossos medos, dos nossos limites, da insegurança, da raiva, do desejo de vingança, seja contra o outro, seja contra nós mesmos, e colocarmo-nos com o coração limpo para esse momento de comunicação entre nossa alma e o Altíssimo. É darmos para o cosmos aquilo que estamos pedindo.
O que pensarmos, então, quando nos for solicitada uma entrega: “preciso fazer as pazes comigo mesmo, sintonizar com o meu eu, desfazer-me de toda a bagagem ruim que carrego, entregar-me a Deus”.
“Deixai ali mesmo, diante do altar a tua oferenda, e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão.” (Mateus 5:24).
Namastê!
Será que os orixás querem receber presentes luxuosos e pomposos? A grande quantidade de presentes ofertados a Iemanjá na virada de ano nos faz refletir sobre o assunto. Será que, ao invés de presentes, estamos ofertando lixo? Convido-lhe a ler esta estorinha e depois vamos refletindo juntos sobra a sua moral:
Era uma vez uma senhora encantada e encantadora que se tornou conhecida como 'A Grande Mãe'. Em seu colo, as crianças se aconchegavam e os adultos buscavam conforto para as dores do dia a dia. De sua boca, saíam conselhos que ajudavam a secar as lágrimas de homens e mulheres aflitos.
As desesperadas pessoas que buscavam 'A Grande Mãe' saíam de seu lar com a esperança renovada. Todos queriam agradá-la e a presenteavam com flores para que sua casa ficasse ainda mais aconchegante. Isso agradava a generosa senhora, mas não era capaz de impedir que, quando estivesse sozinha, chorasse as dores do mundo.
De seus olhos saíam tantas lágrimas, tanta água salgada, que sua adorável casa se transformou no mar. Iemanjá era seu nome. Iemanjá adorava receber presentes, mas sorria da ingenuidade de seus protegidos:
- Como ela poderia ter tempo de ser vaidosa, quando precisava dedicar-se a esfriar as várias cabeças quentes que deitavam em seu colo?...
Quanto mais Iemanjá ajudava as pessoas, mais presentes eram depositados em sua casa. Seu lar foi ficando sujo...
Iemanjá retirou-se para meditar e encontrar a forma ideal de permitir que as pessoas continuassem a praticar seus ritos de agradecimento, sem que ela, sua casa (o mar) e seus filhotes peixes sofressem.
Iemanjá cantava: 'Reúnam-se, cantem e me encantem; este é o presente que quero e posso receber a partir de agora. Não quero mais presentes, quero presença'.
O que podemos concluir diante disso? Seu amor e sua intenção são muito mais importantes do que o material. Nós pregamos o cuidado com o outro e com a natureza, então, porque sujá-la? Faça sua oferenda de amor e ela nunca se transformará em lixo. Os mitos não mudam, mas os ritos, sim, podem evoluir. Um dos grandes males do mundo é o apego ao material, podemos ter certeza de que os orixás não sofrem desse mal. Que possamos sempre ofertar amor, esta sim é a mais valiosa e mais bem recebida das oferendas.
Referência: Mãe Stella passará a presentear Iemanjá com cânticos em 2016. JORNAL A TARDE, 21/12/2015. http://atarde.uol.com.br/bahia/salvador/noticias/1734285-mae-stella-passara-a-presentear-iemanja-com-canticos-em-2016. Acesso em 22/12/2015.