Yemanja (6)
O cheiro de mar chegou.
Desanuviou o que me aperreava.
Por alguns segundos, fui acometida por uma amnésia providencial.
As ideias resolveram se aquietar para deixar a rainha do mar chegar.
Ou melhor, se mostrar.
Agradecida, fui envolvida em uma manta de água salgada.
Num passe de mágica, levou o que não mais me pertencia.
Limpa, fui tomada pelos meus olhos de lince.
Enxerguei o invisível que tem me feito envergar.
Envergo, mas não quebro. É a força de Iemanjá.
A mãe das águas mantém-se firme ao meu lado.
Meu amparo e meu afago, tem me ensinado a desenhar o meu legado.
Fui disposta a fazer pedidos, mas o colo grandioso de mãe só me permitiu sentir o coração agradecido.
Iemanjá é um dos orixás mais cultuados no Brasil. É a padroeira dos pescadores, dos marinheiros, de todo o povo do mar. É a deusa que decide o destino de todos aqueles que nele adentram. Devido à grande devoção do nosso povo, várias homenagens são realizadas à nossa grande mãe. No Rio de Janeiro, por exemplo, estas geralmente acontecem no dia 31 de janeiro e estão relacionadas com as festas de passagem do ano, com procissão e entrega de oferendas no mar. Já em Salvador, na Bahia, comemora-se no dia 2 de fevereiro com várias festas, a maior delas acontece na praia de Rio Vermelho, onde milhares de pessoas vestidas de branco vão ao templo de Iemanjá e deixam presentes, fazem suas orações e também as oferendas em barquinhos cheios de mimos e flores brancas.
Reza a lenda que, quando as oferendas não afundam no mar ou voltam para a praia, os pedidos foram recusados. Contudo, todo pedido feito com fé à mãe Iemanjá é atendido de acordo com o merecimento dos filhos. Crendices à parte, o mar sempre recebe de braços abertos aqueles que nele adentram com cautela e admiração.
Vale ressaltar que a maioria dos umbandistas sugerem, em respeito à natureza e para sua preservação, que se façam as oferendas à nossa mãe apenas com flores, evitando, assim, a poluição das praias e dos mares.
Como todos os demais orixás, Iemanjá tem seu sincretismo religioso com santos católicos, quais sejam: Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição e, em alguns lugares do Brasil, Nossa Senhora das Candeias. Também é conhecida como Janaína, Inaê, Princesa de Aioká, dentre outros. Está sempre representada com as cores azul, branco e verde claro, fazendo sempre alusão às cores do mar, que transmitem calma e serenidade.
A energia de Iemanjá está associada ao começo de tudo, à criação, ao início do mundo e à continuidade da vida. Traz harmonia para a família e protege os lares. É uma energia de RENOVAÇÃO, representada pelo movimento das ondas do mar, que trazem coisas boas e levam embora as demandas e coisas ruins que tanto aflingem o coração de seus filhos.
“Pra todo mal que aqui se encontra, oh leva pras ondas do mar…”
Afinal, quem nunca se sentiu de alma lavada após um banho de mar? Ou depois de uma longa caminhada na areia, ou após contemplar um lindo pôr-do-sol na praia?
É assim que a energia dessa grande mãe age, nos limpando, nos preparando para superar os obstáculos da vida, nos fazendo entender que os percalços existem para que possamos crescer e, nesse sentido, ela nos ensina que mar calmo nunca fez um bom marinheiro e que nem sempre é na calmaria que se formam as mais belas ondas!
Salve nossa grande mãe Iemanjá, a Rainha do mar!
“Ah! Eu não sou daqui... (Marinheiro só!) e nem sou de lá... (Marinheiro só!) eu sou Marinheiro... (Marinheiro só!) minha morada é no mar...”
Muitos são os mistérios que envolvem a linhagem dos Marinheiros. Uma das linhas auxiliares cultuadas em nosso terreiro, evoca todos aqueles que possuem ligação com o trabalho nas águas. Pescadores, marinheiros, piratas, corsários, ribeirinhos... espíritos que, de alguma forma, possuem ligação com as águas que fornecem o sustento por meio do trabalho nos mares e nos rios.
“Mar calmo nunca fez bom marinheiro”. Provavelmente você já ouviu essa frase. Como em um navio em uma jornada pelo mar, somos nós, espíritos em processo de evolução, em uma encarnação. As calmarias nos mares dificultam que o barco siga seu curso. Mesmo com aplicação de muita força nos remos, o barco ainda se move lentamente. Ainda assim, dependendo do rumo designado, ainda terá que enfrentar a força das correntes marítimas.
Isto somos nós em uma encarnação sem provas, sem dificuldades. O que a grande maioria gostaria de ter é aquilo que mais irá dificultar o navegar evolutivo, pois qual a consciência e disposição que possuímos, para superarmos a calmaria e conseguirmos remar por conta própria até o destino final?
Eis que vem a tempestade. E ela balança o barco. Muitas vezes ameaça virá-lo, quebrá-lo... Ondas que parecem que irão engolir o barco e lançar todos seus marinheiros à deriva no mar. Eis onde se forma o bom marinheiro. Aquele que saiu da terra com uma missão e que deseja retornar a qualquer custo. Sabe que o balanço do mar sempre existiu e não vai acabar. Que, nas tempestades, ele se intensifica e, nas calmarias, diminui. Que aprendeu que, para cumprir suas funções de marinheiro, precisa se adequar ao balançar da vida. Respeitar de onde tira seu sustento. Manter-se firme e atento ao horizonte, pois não há tempestade que dure para sempre e, a cada uma que é superada, mais tem a certeza de que aquilo o fortalece.
São regidos por Iemanjá, a grande mãe, orixá das águas salgadas dos mares, a calunga grande (grande cemitério), embora também atuem em águas doces. Porém, como toda água corre para o mar, estão sempre sob os cuidados de Iemanjá. Em suas atuações junto aos médiuns (incorporações), balançam. Muitos associam esse balançar ao fato de estarem bêbados, pois utilizam o rum em seus trabalhos. Enganam-se aqueles que associam essas entidades aos marinheiros bêbados vistos em filmes quando o navio atraca no cais. Eles balançam, pois são acostumados ao movimento feito pelo barco e, adaptados a isto, firmam-se conforme as idas e vindas das águas. Porém, quando em terra firme, acoplados aos médiuns, balançam pelo costume adquirido. Além disso, utilizam, como instrumento de fumo, o cigarro normal.
Quando pensar em marinheiros na Umbanda, lembre-se de que constituem mais um grupo de entidades que buscam quebrar pré-conceitos arraigados em nossa sociedade. Representam mais uma oportunidade que a Umbanda nos dá de aprendermos com entidades que têm suas lições nos movimentos e nas vivências, nos quais a firmeza é feita no coração e nas atitudes, e não nos pés.
“Minha jangada vai sair pro mar... vou trabalhar... meu bem querer (...) meus companheiros também vão voltar, e a Deus do céu vamos agradecer.”
No meu coração sempre serei oceano
oceanarei
fértil, derramar-me-ei em muitas águas
iemanjarei
nada será capaz de me represar
ninguém poderá segurar meu mar
vou iemanjar
úmida, doce e fêmea
ainda que me façam sertão
serei mar.
Mesmo vivendo de forma doce, não é possível evitar as situações mais salgadas, como as do marujo em alto mar.
Nem o furacão do tempo é capaz de impedir que o amor encontremos, após dores sentir.
É como tesouro enterrado que, com um pouco de incremento, forma vidas, cria lares e concretiza o casamento.
Das profundas emoções surge o mais nobre sentimento ou escondem-se frias lembranças, dos mais tristes momentos.
Da correnteza das derrotas brota nosso amadurecimento. Do vai e vem das vitórias, surgem novos pensamentos.
Que colidem com as pedras criadas pelo ressentimento, que fazem seguir a jangada do nosso desenvolvimento.
E, quando se chega ao litoral, se percebe que é preciso içar velas rumo ao norte e enfrentar o desconhecido.
À deriva o marinho pode sentir-se inseguro, mas não se sabe com qual presente a maré o surpreenderá no futuro.
A vida é imprevisível, como imprevisível é o oceano. O náufrago é que não viu, as oportunidades do cotidiano.
O bote das alegrias navega por águas tranquilas, disponível a quem se afoga, nas mais soturnas agonias.
Basta esticar o braço, seguir o farol da esperança e abandonar os velhos pesos, das inúteis inseguranças.
O covarde não enfrenta a correnteza das andanças porque desconhece o triunfo, escondido entre as ondas.
E quem não quer nadar, por entre águas malquistas, continue a remar, até encontrar terra à vista.
Leve a família na mente e liberte-se dos pesares para receber a proteção da mãe Deusa dos Mares.
No Brasil, a devoção a Iemanjá é muito forte. No dia 2 de fevereiro, várias são as procissões e festas para esse orixá. A sua imagem é representada por uma mulher com cabelos compridos e esvoaçados, vestido longo azul que parece um manto de Nossa Senhora, olhar doce e sereno, e braços estendidos, como se a todos quisesse acolher. Ela é amada e respeitada por pessoas de todas as crenças e religiosidades. Mas o que ela tem de especial que promove esse poder de atração sobre todos?
Ela tem um axé de amor, energia cativante que a todos quer acolher e de todos quer cuidar. Ela é mãe, ela é sábia, ela é experiente e é leal. Em seus braços, escutam-se os melhores conselhos. É ela quem cuida do casal, da família, das relações, da magia de acolhimento que é essencial em todo lar. Ela se apega a todos que a buscam e os protege com sua força divina. Representante da água salgada, ela vem sempre para unir, promover enlaces, concórdias e superações. Ela sabe o que é sofrer, ela sabe o que é perder e ela também sabe o que é perdoar e amar.
Sua maior arma não é a espada, é a emoção. Ela atua buscando reequilibrar a emoção de todos os filhos, pois sabe que uma emoção equilibrada é a arma mais poderosa que o ser humano pode ter. Ela quer que aprendamos a lidar com nossas emoções de forma positiva, transformando tudo aquilo que faz mal em bem. Ela quer que entendamos que é digno e honroso chorar, mas que as lágrimas não servem para acumular mágoas, e sim para limpar, purificar e renascer.
As marés indicam que a vida sempre está em movimento e que precisamos aproveitar o melhor que cada onda tem para nos ensinar. Sempre há aprendizados, o ser humano pode mostrar todos os seus aspectos negativos e ainda assim ser lindo e majestoso. Ela nos ensina sobre beleza, encanto e magia.
As sereias são eternas feiticeiras que mostram que podemos lidar com o mundo com sedução e suavidade. A sedução é boa quando utilizada para envolver nossos amores, amigos e familiares de forma íntegra e sensata. Quando estamos apaixonados, a vida é mais leve e nossa percepção do mundo é mais doce e positiva.
E é assim que Iemanjá entra em nossa vida, como se dela já fizesse parte, nos enfeitiçando, guiando e protegendo. Pensemos com carinho no que queremos pedir para essa mãe tão amorosa e protetora neste mês que é dela.
Salve a sua força, Mãe Amada! Continue sempre a proteger nossos corações e nossos destinos. Salve o seu dia! Alodê! Odofiaba, Minha-mãe, Mãe D’agua, Odoya!