Curimba

Curimba (4)

“Curimba é acolhimento, é compaixão e colo, é o coração da gira”. Esse é o relato de uma curimbeira do ACVE, que não quis se identificar. Acolher, acalmar e alimentar. Tais verbos estão profundamente presentes na essência feminina e nas características da maternidade. Não por acaso, também são capazes de descrever alguns dos fundamentos e características de uma Curimba.

Ampliando esse ponto de vista, também podemos relacionar a música a esses verbos. Nada melhor que ter um substantivo feminino para classificá-la! Assim, surge a indagação: e mulheres na Curimba, pode? Para responder a essa pergunta, precisamos conhecer um pouco mais sobre a Umbanda e compreender alguns fundamentos originários das religiões de matriz africana. No entanto, de onde vêm essas ideias e dogmas que dão origem a essa pergunta?

Atualmente, as mulheres estão redescobrindo o seu poder, ocupando seu lugar na sociedade e demonstrando que são capazes e eficientes tanto quanto os homens. Porém, quando o assunto é religião, cada uma possui o seu fundamento e, em muitas delas, a mulher é impedida de realizar certas funções ou rituais. Não cabe a nós julgarmos esses conceitos. Pelo contrário, devemos sempre pregar a união e o respeito entre as religiões.

No candomblé, acredita-se que a mulher não pode ser ogã e não deve tocar atabaque. Entendem que a energia masculina é a mais apropriada para a invocação dos orixás e entidades, utilizando uma justificativa essencialmente energética. Outro argumento comum diz respeito à oscilação emocional que a mulher passa durante seu ciclo menstrual. Eles acreditam que tal desequilíbrio afeta e influencia a energia do toque no atabaque, do instrumento em si e da corrente mediúnica. Talvez, por esses e outros aspectos, tais questionamentos sejam feitos às casas que possuem ogãs mulheres. Contudo, devemos lembrar que existem diferenças nos fundamentos e rituais praticados entre as religiões de matriz africana.  

A Umbanda acredita que todo médium está sujeito a baixar sua vibração energética e/ou emocional de acordo com suas ações e pensamentos, independentemente do gênero, raça, idade ou cor. Em nosso contexto, a Curimba é capaz de favorecer o reequilíbrio energético, pois é um polo de irradiação energética, que potencializa as vibrações, dissolve energias negativas, dilui miasmas espirituais (vibração negativa que causa transtornos espirituais e mentais) e limpa a atmosfera, criando um ambiente ideal para o trabalho mediúnico. É através do toque do curimbeiro ou curimbeira, que toda essa magia acontece e o ritmo, o som e a vibração geram alegria e amor, energias estas que são capazes de eliminar qualquer influência negativa.

Para muitos, estar na Curimba representa, antes de tudo, uma oportunidade de vivenciar o valor da música como forma de praticar o bem, a caridade. Representa um ambiente onde a importância e o poder da música sempre são ressaltados, a amizade tem seu lugar e relembra que Umbanda é união e Curimba, conexão com os ancestrais. Certa vez, ao escutar confidências de uma irmã curimbeira, ela me disse: “Como doar amor quando se está fechada? Não dá. A Curimba me ajudou a reconectar com esse amor, de forma leve e pura.”

Ao serem questionadas sobre o que é ser mulher na Curimba, algumas curimbeiras responderam:

“Estar na Curimba me trouxe um sentimento de libertação, poder "soltar" o que me faz mal, seja através da voz ou do batuque dos instrumentos e poder receber de volta a energia equilibrada. Transmutação pura!”

Médium Juliana Abdala

 

“Vejo como até mesmo um equilíbrio no trabalho, tendo ali a força feminina e a masculina trabalhando juntas. Sei que, para muitas ali, é meio complicado ter força para tocar o atabaque, por exemplo, mas hoje vejo que, dentro da Curimba, estamos bem igualitários, não existindo ninguém melhor do que ninguém ou essa diferença entre ser homem ou ser mulher.”

Médium Ana Luiza Azarías

 

“Confesso que não tinha parado para pensar muito sobre isso, mas percebi que a musicalidade tem uma relação muito próxima com a energia feminina como, por exemplo, o envolvimento com uma certa fluidez (ritmo/sonoridade) e um certo cuidado na construção de sentidos (letra). Percebo a Curimba como um lugar de diversidade, de inclusão. Sou feliz e grata por isso. Então, para mim, como mulher, estar na Curimba significa desenvolver vários potenciais, dos técnicos musicais aos mais abstratos, como intuição, capacidade de entregar-se para o trabalho,  a própria espiritualidade.

Médium Karina Fernandes

 

Respondendo à pergunta inicial: Não só pode, como tem fundamento a mulher na Curimba!

Para finalizar e descrever o meu desafio de resumir a mulher curimbeira, deixo alguns versos da música “Mulher”, de Elba Ramalho:   

 

Quem vê por fora, não vai ver
Por dentro o que ela é
É um risco tentar resumir
Mulher...

.....

E sempre faz o que bem quer
Ninguém pode impedir
E assim começa a definir
Mulher...
Mulher...
Entre tudo o que existe é principal
Pra você gerar a vida é natural
Esse é o mundo da mulher...”

 

Médium Natasha Cyrino,

 

Inspirada pelas curimbeiras do ACVE.

 

A curimba é o grupo musical que toca os instrumentos e canta os pontos de força de cada firmeza, entidade e Orixá.

A curimba, ao cantar os pontos e fazer os atabaques ecoarem seus sons, emite a vibração sonora como campo de força magnética, que reverbera na atmosfera do terreiro, fazendo dissipar energias negativas, miasmas, larvas espirituais, promovendo uma limpeza espiritual e ajudando na concentração dos médiuns, facilitando o transe mediúnico.

Em nossa casa ACVE, a curimba é composta por homens e mulheres. Geralmente, em culturas de origem afro, não é permitido a mulheres se tornarem curimbeiras, atabaqueiras, ogãs, mas na umbanda é permitido.

Na curimba há vários instrumentos, mas os principais são os atabaques RUM, RUMPI E LÉ, que emitem os sons: grave, médio e agudo, respectivamente. E, assentados, temos os atabaques do Caboclo Pé Ligeiro, do Exu Mangueira e da Pombagira Dama da Noite, entidades que trabalham com o nosso pai de santo Pedro Lettieri. Eles ajudam a sustentar o trabalho mediúnico.

Sempre ouvimos a frase: “QUEM CANTA REZA DUAS VEZES”. E podemos afirmar que a curimba passa essa força e sustentação para toda a casa, a curimba é uma linha de frente responsável pela magnetização do ambiente, promovendo a força dos trabalhos e, pelo fato de emitir sons dos instrumentos sagrados, desempenha um trabalho mediúnico que é fantástico, pois, nas vibrações emitidas, acontecem desobsessões, limpeza do ambiente e funciona também como um passe em todos ali presentes no ambiente.

Quem nunca se emocionou, ou sentiu arrepios, ou até mesmo sentiu sua alma vibrar ao som dos atabaques e dos pontos cantados? Creio que todos sentem essa energia maravilhosa que brota da curimba, que sai dos atabaques, ressoando em nosso corpo, inundando nossa mente e vibrando em nossa alma.

A curimba não é um conjunto musical de animação, ela é a alma do terreiro, escudo e transmutadora de energias. Os ogãs não são artistas, são guerreiros vestidos com a couraça de batalha, a qual exige força, concentração e muita doação de energia, um trabalho de amor e de caridade. Responsáveis pela harmonização de um ambiente mediúnico, onde a espiritualidade vem trabalhar no amor, a serviço da caridade, de forma que todos nós ajudamos e somos ajudados.

 

Viva a curimba, viva os ogãs, viva a vida!

A curimba é o ambiente no terreiro composto pelos instrumentos musicais e pelos médiuns denominados Ogãs, Curimbeiros ou Atabaqueiros. E você sabia que junto com os atabaques, a curimba traz a cultura ancestral à Umbanda, além de alegria? Porém, quem conhece bem a ritualista Umbandista sabe que a função da curimba não é simplesmente animar um terreiro. E nenhum médium precisa dela para incorporar. Mas é claro que a musicalidade pode ser utilizada como fator potencializador das ritualísticas e da incorporação. Na verdade a curimba é uma das peças na complexa engrenagem de um terreiro. Por analogia, podemos dizer que ela é o coração do sistema. Alias, pode-se fazer um paralelo com a função do exu no candomblé: assim como ele, a curimba funciona como mensageira dos orixás.

Todo Ogã nasce e aperfeiçoa-se sendo guiado pela inspiração. Chamamos isso de “mediunidade de inspiração”. Na curimba, ela é acompanhada, principalmente, das mediunidades artísticas, musical, e intuitiva. A definição desse conjunto mediúnico pode ser assim expressada: percepção da dinâmica do plano espiritual de acordo com as necessidades da gira, traduzindo-a de modo criativo e objetivo por intermédio da música e dos versos, sempre com o auxilio dos guias espirituais. A curimba é a comunicadora e um contato constante com o plano espiritual e com as diversas variações que ocorrem no culto.

Outro aspecto que compões a maioria das religiões são as preces e orações. A prece pode ser definida como a manifestação externa de um sentimento ou sensação interior que toca o ser que a pronuncia, seja essa manifestação mentalmente ou falada. Em diversos cultos e rituais sagrados, notadamente em religiões de matrizes africanas e indígenas, as orações e preces são executadas por intermédio das canções e da música. Os instrumentos e atabaques servem para aprimorar esse processo. São denominadas, assim, de orações cantadas ou pontos. “Rezar” um ponto é mais uma função da curimba. Por isso é possível observar que, ao valer-se da curimba e dos pontos, o culto umbandista praticamente inicia e encerra seus trabalhos espirituais orando.

Esse processo é um tipo de reza forte com musicalidade revestida de africanidade e pajelança ao modo da umbanda. E dentro dessa dinâmica magística-musical, os ogãs devem colaborar com os dirigentes, captando com sua percepção mediúnica tudo que está ao redor da gira, esforçando-se em distinguir aquilo que é oportuno ou não, e automaticamente “rezando” e “orando” a vibração necessária para o momento. Por intermédio da percepção, o ogã inspira-se e auxilia ao perceber a aproximação de um guia espiritual que o médium incorporante ainda não percebeu.

Além disso, para os principiantes, a música pode suaviza a recepção das palavras cantadas, oferecendo imersão às cantigas e aos rituais, transformando os trabalhos mais acolhedores. O ponto cantado ajuda a tranquilizar o consulente que esta sendo atendido. Também pode ter a função de sustentar a concentração do médium incorporado, e até a de descontrair e suavizar o clima mediúnico do terreiro.

A música pode funcionar ainda como processo de cura e libertação, tocando em pontos sensíveis das emoções e da psique de quem a contempla, seja encarnado ou desencarnado. A pronúncia firme de cada frase, alinhada ao uso específico de palavras de poder, tem a força de acessar áreas profundas do cérebro e aproximar-se de energias singulares do cosmos. Em verdade, os pontos são mensagens que transmitem os mais variados significados. Funcionam como um processo que engloba as artes e a meditação, unidos à criatividade e espontaneidade, mas nunca distante da seriedade, humildade e simplicidade.

Em decorrência da percepção sensorial-mediúnica, o Ogã deve estar sempre atento para o andamento dos trabalhos e do bem-estar da gira.

 

Ele vê, sente e percebe essa dinâmica mediúnica, e, em alguns casos, a presença de um opositor. Deve ainda ter atenção para que todas as etapas do ritual transcorram conforme a necessidade do terreiro. Aqui, portanto, a curimba colabora com a segurança da casa espiritual. Por isso, todo Ogã deve preparar-se espiritual, física e emocionalmente. É indispensável o estudo detalhado do uso de cada tipo de batida no atabaque, além da simbologia que cada palavra, frase ou ponto carregam.

Em alguns casos, os pontos e os atabaques não são especificamente direcionados para os médiuns ou consulente (embora eles peguem “carona” no processo), e sim para as entidades que estão em volta da corrente, especialmente a dirigente da gira. Mas é sempre uma parceria indispensável que envolve toda a corrente.

Sob um ponto de vista geral, o calor e energia gerados com as batidas no couro dos atabaques, alinhadas com a melodia e comandos pronunciados pelo orador dos pontos cantos, permitem que diversos tipos de demandas sejam quebradas, ou ainda, que energia sejam transmutadas. Em sua multiplicidade, a curimba deve transmitir segurança, alegria e espírito de união.

Por isso, todos os médiuns podem e devem interagir com os acontecimentos da gira e com os trabalhos da curimba. Isso é importante para o próprio médium que interage, mas principalmente para o andamento da gira. Fica evidente, assim, a diferença que há entre a música mecânica e a realizada presencialmente. A música presencial permite maior dinâmica e magnetização, embora a música eletrônica também tenham sua utilidade e pode ser utilizada em processos de meditação e harmonização.

Desmoraliza a curimba o ogã que pula de terreiro em terreiro apenas para tocar um atabaque, desprezando o fundamento espiritual e o propósito da curimba e do terreiro. Por tudo isso, os ogãs precisam se esforçados para cumprir esse papel sagrado com excelência, e todos os médiuns devem preocupar-se com o bem estar da curimba e com seu terreiro, respeitando e colaborando com o compromisso de cada um. Salve a curimba e a Umbanda.

Médium Lucius Lettieri.

 

 

 

“Toda vez que toca a música, seja qual for, eu sinto um arrepio. Mas, um arrepio bom. Passa uma coisa muito positiva e muito intrigante”. Rafael Soares Lino, Consulente.

“Eu sinto alegria... Porque a gente vê que tá indo pra um lugar e várias coisas tão acontecendo ao mesmo tempo com a música da Curimba. Lá no Terreiro tem que incorporar com os velhinhos. Aí, como é que vão chamar eles? A música chama os pretos velhos, abre um portal”.  Valentina de Orem, 9 anos, médium, 1 ano e meio no ACVE.

Cada um, a seu modo, pode ter uma opinião sobre a batida dos atabaques e as mensagens musicadas no decorrer dos trabalhos realizados em um Terreiro. Interessados em saber sobre essas percepções, entrevistamos  alguns médiuns, crianças e adultos, e consulentes, no intuito de saber o que eles pensavam em relação à música na Casa. Embora cada resposta tenha sido amorosamente particular, algo transpareceu de maneira compartilhada: a música é transformadora da atmosfera e uma energia cativadora de múltiplos sentimentos. É nesse sentido que, agradecendo antecipadamente as várias contribuições dos entrevistados, aproveitaremos para refletir um pouco mais sobre o papel da música nos trabalhos da Casa Ação Cristã Vovô Elvirio (ACVE).

“Eu não sei se é porque a gente é médium, o negócio já pega logo fogo. O negócio fica é quente. Eu acho muito bom. A gente quando tá lá, na Consulência, como se fosse um chamado. Que Eles estão presentes. Foi o que eu senti quando cheguei na Casa.” Margarete da Silva, médium, há 1 e 6 meses no ACVE. 

“Quando a gente tá sentado ali, a gente vê que a energia tá diferente. Mas, quando a Curimba toca, tudo muda, tudo se alegra, tudo fica mais forte”. Sabrina Siqueira Oliveira, Consulente. 

Abertura de portais, energia potencializadora de conexão, de forças e de concentração.  O que você sente quando a música começa nos trabalhos do ACVE? 

“Quando começa aquele barulho do atabaque, eu não sei o que acontece. Eu acho que se não tivesse a música, eu não me sentiria tão conectada ao meu povo. Eu sou louca com o barulho do atabaque”. Ana Gabriela do Nascimento, médium, há 1 ano no ACVE.

 “A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos”, já dizia o grande músico Beethoven. Da profunda calma e introspecção até um intenso êxtase e agitação, a música coloca-se como um recurso concreto e prático para o direcionamento das energias relacionadas ao trabalho mediúnico.  

“No geral, pra mim... Eu fico mais concentrado. Tem horas que eu fico muito feliz, tem horas que eu quero mais foco. Tem música que acalma também, mas o que eu mais sinto é mais ânimo e foco.” Guilherme Martins, médium, 1 mês no ACVE. 

“É uma coisa bem especial, eu acho. Pra mim, particularmente, dá todo o toque de magia.” Thayanne Siqueira, médium, há 15 dias no ACVE. 

Podemos perceber que a música é capaz de agir nas esferas pessoais, bem como, enquanto mecanismo modificador da atmosfera do trabalho, no ambiente como um todo. 

“O Terreiro antes fica tumultuado, quando a Curimba começa a tocar quebra isso e fica uma energia mais positiva. Flui mais”. Ian de Castro, 11 anos, médium, há 1 ano no ACVE. 

De maneira geral, algo é comum e inegável: temos uma relação íntima com a música, a ela somos sensíveis e com ela somos sensibilizados. É nesse sentido que a importância da música se destaca nos trabalhados ritualísticos realizados no ACVE. Com ela somos, sobretudo, mobilizados para o trabalho com a espiritualidade. 

“A energia dos atabaques, a energia da música puxando o axé, a força... Você vê que a energia muda, o axé aumenta, a força aumenta. Você vê que é diferente quando tá sem música.”. Vinícius Barbosa, médium, há 4 anos no ACVE. 

A música se permite e se constrói nas emoções, por isso, amplia o nosso sentir e favorece o nosso agir como recurso para o trabalho espiritual. 

“É uma vibração muito forte. É uma energia que cativa as pessoas. A música para o Terreiro é essencial. Tem que ter, porque alegra não só a gente, mas o clima fica mais alegre, fica bem bonito”. Leonardo Ferreira, médium, há 6 meses no ACVE. 

O Brasil tem uma cultura muito musical e a Umbanda, como religião brasileira, não poderia ser indiferente a esse atributo tão forte. Todavia, é preciso ressaltar que ela não pode ser vista como obrigatória para que o trabalho efetivamente aconteça, ainda que seja um ingrediente favorecedor das várias conexões (senti)mentais e espirituais. 

“Quando o toque da Curimba entra, ele faz um movimento de energia de sustentação. Traz essa energia e facilita o trabalho de conexão, de ligação com as entidades. Mas, o que a gente tem que entender, enquanto médium, é que a gente deve estar preparado pra trabalhar de qualquer jeito. Não posso dizer assim: ”Eu só consigo incorporar se o ponto da Entidade tiver tocando”. Mas traz uma energia e eu acho que contagia, contagia muito”. Rogério Barbosa, médium, há 4 anos no ACVE. 

E, para além de uma percepção individual, a música tem um papel de promover a união do grupo mediúnico, deixando-o mais harmonioso, a partir de um padrão vibratório comum, e auxiliando no direcionamento das energias necessárias. 

“A música tem um poder muito grande, tanto de concentração quanto de força mesmo pra uma determinada coisa. Por exemplo, preciso da concentração dos médiuns para juntar uma força pra Exu. Eu acho que a música tem esse fator que faz, naturalmente, as pessoas vibrarem na frequência que a Entidade dirigente precisa”. Gabriela Queiroga, médium, há 3 anos no ACVE. 

“É a hora que eu me sintonizo melhor com a Casa. A música pra mim é o que realmente me liga com o alto”. Ana Maria de Castro, médium, há 1 e 5 meses no ACVE.

Na Casa, o espaço principal promovedor da música é a Curimba que, durante as entrevistas, foi lembrada de maneira muito especial: 

“Eu percebo que é um ponto de descarrego, um ponto de força da nossa Casa. Desde o primeiro dia, eu fui como Consulente, quando eu vi a Curimba bater, eu me arrepiei. É um sentimento que, cada vez que ela bate, cresce”. Arlen, médium, há 3 anos no ACVE.  

Para os médiuns, a Curimba também é uma oportunidade de estabelecer um vínculo com a música e com os instrumentos musicais aprendendo sobre sua importância como recurso para o trabalho espiritual, independentemente de idade ou experiência musical.

“Eu gosto de ficar na Curimba e no Congá. Eu gostava de ficar na Curimba porque lá eu tocava instrumento”. Maria Beatriz Macedo, 8 anos, médium, há 3 anos no ACVE.

“Eu acho que a música é essencial. Eu não sei se as pessoas entendem qual é o propósito. Eu como médium não espero que a Curimba seja com cantores profissionais, eu espero que ela esteja ali trabalhando de coração aberto e que o ritmo esteja dentro do que as entidades precisam pra realizar o trabalho”. Glauce Melo, médium, há 5 meses no ACVE.

A Curimba coloca-se como um espaço de diálogo entre ambiente mediúnico e a Consulência: 

“Eu me emociono muito, eu acho muito bonito, faz toda a diferença. Pra mim a Curimba é uma coisa inexplicável. Nos dias que ela tá com o axé muito forte, faz toda a diferença, principalmente pra quem está na Consulência. Da última vez que estive lá, senti muita falta da participação da Consulência. Porque na minha época de Consulência, a gente cantava junto, a gente batia palma se não sabia as músicas, mas, a gente ajudava nesse axé. Eu acho que a Curimba podia puxar um pouco mais da Consulência, não só dos médiuns... para poder animar a galera!”. Daniele Barbosa, médium, há 4 anos no ACVE. 

Quem canta, quem ouve, quem ouve e canta a música também se mostra como um meio acolhedor e motivador para os que frequentam a Casa: 

“Eu entrei lá, quando eu vi aquela Curimba tocando, eu... pronto! É aqui que eu vou ficar! Não saio mais! Porque eu sou da Umbanda desde que eu nasci. Eu fui batizada na Umbanda. Mas não tinha Curimba. Quando eu vi aquela Curimba, foi amor à primeira vista”. Anna Paula de Castro, há 1 e 4 meses no ACVE.  

A música possui um potencial envolvente por (re)direcionar emoções, movimentando-as e motivando sentimentos. É importante ressaltar a necessidade de estar aberto, receptível, para aproveitar ao máximo todas essas benesses que ela possa permitir. 

“Não é só a Entidade em si que trabalha com o irmão consulente que vai lá. A música também é fundamental para o tratamento. A música é um tratamento. A Arte em si é um tratamento. A música alcança lugares que, às vezes, um irmão não consegue chegar. Então, a música, ela tem também esse papel: alcançar alguns irmãos para ajudá-los nessa jornada”. Marcela Vieira, médium, há 2 no ACVE. 

A música coloca-se como essência mobilizadora, nem sempre é possível explicar de maneira exata, precisa ser sentimento pautado pelo amor: 

“É uma questão muito de sentir. Não dá muito pra você transmitir na palavra o que você sente na hora. Entende? É uma coisa que parece que vibra dentro de você. Eu acho que é muito de sentir. Vem a emoção e você sente em cada célula, você sente no seu corpo”. Rafaela Spach, médium, há 2 anos no ACVE.  

A partir dessas entrevistas, o que se destaca nas reflexões sobre a música é que ela salta ao coração, mais do que aos ouvidos e aos olhos: a primeira engrenagem que precisa movimentar é a dos sentimentos pautados pela Lei de Amor e para o serviço ao Bem.

 

As entrevistas foram realizadas em 25 de julho de 2015, durante a preparação do espaço onde ocorreu a festa junina e durante a festa junina. As entrevistas realizadas com crianças tiveram publicação autorizada pelos pais e/ou responsáveis.