Ogum

Ogum (2)

Terça, 10 Abril 2018 09:01

A ARTE DA GUERRA

Guerra: substantivo feminino de conotação negativa por ser associado à causa de muitas mortes. Etimologicamente, guerra significa discórdia, revolta, peleja, todos com igual conotação negativa, se pensarmos nos contratempos que essas situações nos trazem. Mas e se pensarmos nos benefícios? Pode uma peleja trazer algo de bom? Toda peleja vem da necessidade de resolver algum problema, e só tem fim quando o problema é solucionado. O filósofo chinês Sun Tzu já afirmava que “o verdadeiro objetivo da guerra é a paz.” Não há mudança sem revolução.

Guerras, em seu sentido primário, acontecem todos os dias, em todos os cantos do planeta. Guerras na família, guerras no trabalho, guerras com os outros, guerras pessoais.  Podemos dizer, assim, que somos todos guerreiros?

A sagrada Umbanda também tem seus guerreiros. Dentre os Orixás, Ogum é um deles. Ele é um dos três guerreiros mais poderosos de Orum (lar do Orixás). A energia desse Orixá é ordenadora e está em tudo e todos que conspiram para estabelecer a ordem e o equilíbrio; ordem de todas as coisas, inclusive de nossas vidas, tanto no aspecto material como emocional e espiritual, e equilíbrio que faz com que nos sintamos bem conosco e com o mundo. Mas, para conquistar essa ordem e equilíbrio, é preciso que haja iniciativa de alcançá-los. E como chegaremos lá? Guerreando!

Guerrear se refere a enfrentar as lutas internas e externas, encarar tudo e todos de frente, com coragem e fé. As armas para enfrentar essas batalhas são a disciplina, a autoconfiança, o amor e a caridade. Ogum dá a força para que a batalha da vida, que é inevitável, seja enfrentada com garra e confiança na vitória. Fugir dessa guerra traz tristeza, dor, frustação. Esquivar-se dela significa desistir de si mesmo, desistir de achar o caminho que te engrandece, seja ele estreito ou largo. Caminho esse que é domínio de Ogum. Podemos até nos enganar, achando que a luta é opcional, contudo, mais cedo ou mais tarde, teremos que pegar espada e escudo e partir para o campo de batalha. E lá se encontrará Ogum para nos ajudar a combatermos qualquer que seja o mal que nos assombre.

Onde houver Ogum, lá estarão os olhos da lei. Ogum protege com seu escudo aqueles que zelam pela lei e pela ordem, e ataca com sua espada aqueles que agem em direção à desordem. Ele é o pai que protege e abriga, mas também o que ensina.

Ogum é celebrado no dia 23 de abril, mesmo dia em que a igreja católica celebra São Jorge. Este santo é sincretizado com Ogum por apresentar características semelhantes às dele. O dia da semana de Ogum é terça-feira. Suas cores, em nosso terreiro, são vermelho e branco. Seus símbolos são a espada, a lança e o escudo. É o Orixá ferreiro, que domina os campos abertos e todos caminhos.

Ogum é o Orixá patrono do ACVE, o que nos torna uma casa de disciplina. Todos os participantes de nossos trabalhos, sejam eles médiuns da corrente ou consulentes, estão sempre sob a luz da proteção de Ogum, que cuida, mas também cobra como o pai zeloso e rígido que é.

Portanto, meus irmãos, estejamos cientes de que toda atuação energética funciona tanto ativamente como passivamente. Quando pedimos a força e proteção de Ogum, devemos nos esforçar para sermos sinceros e corretos perante todos, agindo dentro da lei. Dessa forma, seremos merecedores de suas bênçãos.

 

Ogunhê

 

“Ogum, meu Pai – vencedor de demanda, grande guardião das Leis -, chamá-lo de Pai é honra, esperança, é vida. Vós sois meu aliado em combate às minhas inferioridades. Senhor, Vós sois o domador dos sentimentos espúrios. Depurai, com Vossa espada e lança, minha consciente e inconsciente baixeza de caráter. Ogum, irmão, companheiro e amigo, continuai em vossa ronda e na perseguição aos defeitos que nos assaltam a cada instante. Glorioso Orixá, reinai com Vossa falange de milhões de guerreiros vermelhos e mostrai, por piedade, o bom caminho para o nosso coração, consciência e espírito. Despedaçai, Ogum, os monstros que habitam nosso ser, e expulsai-os da cidadela inferior.” Que assim seja!

 

 

Patacori Ogum!

 

Nas palavras de Publius Flavius Vegetius – “si vis pacem, para bellum”, em tradução livre: “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Esta guerra, nos campos da Umbanda, do bem e do amor, é a luta contra o egoísmo e a vaidade, chagas da humanidade; uma constante busca do amadurecimento, sabendo que amadurecer é receber mais e mais responsabilidades. Como afirmou André Luiz, amadurecer é não temer nada nem ninguém, é temer apenas os nossos impulsos levianos e desvirtuados, buscando, em todos os instantes, corrigir as imperfeições e más inclinações da alma, visando um plantio salutar para uma colheita edificante.

No Evangelho Segundo o Espiritismo é possível verificar as mesmas ideias: “Vim lançar o fogo na Terra, para consumir os erros e os preconceitos, como se põe fogo num campo para destruir as ervas daninhas, e anseio porque se acenda, para que a depuração se faça mais rapidamente, pois dela sairá triunfante a verdade. A guerra sucederá a paz; ao ódio dos partidos, a fraternidade universal; às trevas do fanatismo, a luz da fé esclarecida”. (Capítulo 23, item 16).

Podemos encontrar total conexão dessa passagem com o Orixá Ogum, sua força vibracional e sua atuação no mundo. A Umbanda não entende Orixá como um ser encarnado, um Deus ou semideus, compreende como um impulso divino, uma manifestação da força divina sobre a matéria. Ogum é patrono da umbanda, juntamente com São Miguel Arcanjo, e é o orixá da LEI Divina, aquele que age na Lei do Amor, diferente de Xangô, o qual atua na Justiça Divina. 

Orixá do Ferro, do Fogo, e da Guerra, simbolizado em um guerreiro que luta pela Lei e pela ordem, abre e rege os caminhos e vence as lutas, guerras e batalhas da vida. Estes caminhos são os caminhos da evolução, e por vezes, para abertura de um caminho, para um recomeço, se faz necessário destruir o que é antigo. As lutas, guerras e batalhas – que são as dificuldades pessoais –são onde se encontra o grande desafio: se superar e ser melhor; morrer para aquelas atitudes e inclinações que não lhe enobrecem a alma e renascer para uma nova vida, vislumbrando novos horizontes, novas possibilidades de crescimento moral. Ogum vibra garantindo força para os filhos que querem se libertar das amarras pessoais, auxilia aqueles que buscam o melhoramento moral, a libertação dos vícios, ou uma verdade na vida. 

A força de Ogum conduz aqueles que não querem desistir dos objetivos, vitaliza e fortifica sem cessar o filho que busca vencer as guerras nobres contra as más inclinações, é uma energia ordenadora e disciplinadora. Aquele que invoca Ogum busca colocar em ordem sua vida pessoal e disciplinar suas atitudes. “Patacori!”, saudação a Ogum, para alguns significa “Corte a cabeça!”. Cortar a cabeça do dragão simboliza cortar a cabeça das guerras internas, dos medos, dos preconceitos e dos vícios.

Ogum tem sincretismo em São Jorge na maior parte do Brasil e em São Bento na Bahia, sendo terça-feira o dia da semana de vibração deste orixá, e o dia 23 de abril, em referência a São Jorge, o dia de Ogum na Umbanda. A vibração de Ogum remete também à tecnologia e às descobertas inovadoras, por ser um orixá ousado e destemido. Há inúmeros eventos marcantes datados no dia 23 de abril, como a descoberta da partícula subatômica em 1994, a entrada do exército vermelho em Berlim em 1945 durante a segunda Guerra Mundial, coroação de reis e diversos eventos ligados à força e vibração do Orixá Ogum.

No Ação Cristã Vovô Elvírio, se utiliza vela vermelha e branca para Ogum, e sua bebida é cerveja branca. Na sua gira comemorativa, os médiuns vestem saias e calças brancas, e camisas vermelhas. Os filhos de ogum costumam ser criativos e ativos, tendo o instinto de competição aguçado e visível, podendo ser imprevisíveis e impetuosos, costumam obter êxito onde outros não conseguiriam. O desafio e a ânsia de vencer o fazem agir com tenacidade para atingir seus objetivos, não sendo receptivos a opiniões exteriores e por vezes são rudes, mas não têm nenhum problema em pedir perdão.

“Ogum é quem dá confiança para uma criança virar um leão; é um mar de esperança que traz a bonança para o meu coração” (trecho da canção Ogum, de Zeca Pagodinho).

Médium Rafael de Ávila.