Omolu (4)
O Dia de Finados, também conhecido como o dia dos mortos, é celebrado no dia 2 de novembro, esse mesmo dia, é também conhecido como dia de culto à Omolu, por este ser um orixá que está relacionado diretamente ao desligamento da matéria. O Dia de Finados é celebrado em, praticamente, todo o ocidente. Existem registros de sua celebração desde o século X e o princípio deste dia é relembrar, homenagear e orar pelos os que passaram deste para o plano espiritual.
A palavra finados vem do verbo finar tem origem do latim “finis” que significa: fim, acabar, encerrar. Então pode-se entender o Dia de Finados como o dia do fim. O que para muitos pode significar o final de tudo, para nós, significa o começo de um novo ciclo, o ciclo da vida espiritual. Que nada mais é que retorno para a verdadeira morada do espírito.
Mas, afinal. Qual é a relação de Omolu com o Dia de Finados? Bom, entende-se Omolu como o senhor da vida e da morte, o regente da calunga pequena e o responsável pela passagem dos espíritos do plano terreno para o espiritual. Porém, Omolu é também conhecido como “orixá do fim”, mostrando assim, relação direta com o Dia de Finados.
Omolu, é sincretizado com São Lázaro, e é tido nas lendas como um orixá muito temido por todos, principalmente, por ser o responsável pela passagem dos espíritos do plano terreno para o espiritual. Porém, não é apenas no momento do desencarne que sua energia se faz presente.
A representação da morte, que é atribuída a Omolu, não representa necessariamente o desligamento da matéria. Omolu atua, também, na “morte” de ciclos, sendo assim, sua energia está tão presente em um fim de relacionamento, tal como está presente em um desencarne, por exemplo.
Sendo então o "orixá do fim” a energia de Omolu é muito forte e presente no Dia de Finados, muita dessa força se dá por conta da presença de muitos pensamentos voltados ao desencarne, e consequentemente ligados ao plano espiritual, formando então, uma egrégora fortalecedora de suas energias.
Deste modo, além de ser um dia para relembrarmos dos que passaram do plano material para o espiritual, o Dia de Finados é um dia para se refletir sobre fins de ciclos e tentar entender melhor nosso propósito de vida. Lembrando sempre, que a vida terrena é apenas uma passagem, mas entendendo que essa passagem é de suma importância para nosso crescimento e evolução.
“Sem o arsenal que lhe constitui o aspecto religioso, não será Umbanda, mas apenas Espiritismo.”
Ramatis – in “A Missão do Espiritismo”
Etimologicamente, o verbete orixá, originário da cultura Nagô – Iorubana, pode ser decomposto em ori, que significa cabeça e xá, rei. Portanto, o rei que governa a cabeça. Orixá também pode ser pensado como uma corruptela de Purushá, que, segundo os Vedas, também é atuante sobre as cabeças de cada uma das criaturas. Purushá é um ser eterno, imutável e dominante sobre a dimensão espaço-tempo. O conhecimento hinduísta existe há milênios e foi aqui citado para evidenciar que na verdade tudo converge, independentemente da época e cultura, mesmo as mais remotas, pois emana da mesma fonte – Deus.
Na Umbanda, os Orixás são identificados como radiações cósmicas da Mente Criadora. Aprendemos que renascemos sob a regência de um Orixá maior e influenciados com maior ou menor intensidade pelos demais. Além dos Orixás, nossa casa adota as linhas de trabalho, que são um conjunto de características que os espíritos assumem para melhor se organizarem em grupos na execução de suas missões.
No Ação Cristã Vovô Elvírio, sete são os Orixás/Linhas principais: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Yori, Xangô, Iemanjá e Yorimá. São também cultuados Omolu, Oxum, Ossaim, Oxumaré, Iansã e Nanã. Porém, o fato de aceitarmos alguns Orixás principais não representa qualquer desapreço com os demais. São opções do dirigente espiritual para nortear suas linhas de trabalho. Até porque cada um deles pode vibrar em mais de uma linha. Todos os Orixás são também considerados linhas de trabalho.
Conforme nos contam as lendas, os Orixás apresentam particularidades: virtudes, defeitos, ervas, cristais, saudação, lendas, etc. Por exemplo, estudaremos alguns atributos do senhor Omolu. Reza a lenda que Omolu é filho de Nanã, que o abandonou na praia após seu nascimento, ao constatar que a criança apresentava-se feia e coberta de feridas. Iemanjá o recolheu e cuidou como filho. As lendas na Umbanda servem, também, para explicar algumas particularidades e afinidades vibratórias entre dois ou mais Orixás. Por exemplo: Omolu e Nanã têm os seguintes aspectos em comum:
- O mesmo elemento: terra.
- O mesmo metal: chumbo.
- O mesmo signo regente: escorpião.
- O mesmo chacra: básico.
- O mesmo atributo: transformação dos corpos e transmutação das energias negativas.
- Nanã é a senhora da lama e Omolu é o senhor da terra.
- Mesmo mineral: ametista.
As vibrações de Omolu estão presentes nos hospitais e leitos de dor. É o curador das doenças físicas e das mazelas da alma. Contudo, OMOLU vibra mais intensamente nas terras dos cemitérios, que representam o local da passagem entre os mundos dos vivos e dos mortos. Portanto, seria seguro chamá-lo de o “Senhor das Transformações Humanas”, porque promove o esgotamento das energias negativas.
O Senhor Omolu, dependendo das circunstâncias, atua em conjunto com os outros Orixás. Nos esgotamentos energéticos humanos, ele está com Nanã e Exu. Nas libertações obsessivas, lá está ele com Iansã. E, com Oxalá, para fortalecer a fé. Na renovação das energias da prosperidade, com Iemanjá e Oxum. Nos recomeços dos caminhos, com Ogum e Oxóssi. Quando se trata da busca das justas recompensas, com Xangô e Ogum. Nas profundas alterações psicológicas e pela busca do equilíbrio, lá está ele em harmonia com Yori e Yorimá.
A terra, elemento natural do Senhor Omolu, é desintegradora das energias negativas e fornecedora das positivas. Atrai as demandas contra o terreiro, auxilia na formação das egrégoras positivas e amplia o campo energético das firmezas e dos assentamentos da casa.
O Senhor Omolu, de acordo com as lendas de origem africana (que nos ajudam a entender melhor a vibração do Orixá), porta o Xaxará, objeto sagrado feito de madeira e ornado com palha da costa e búzios. A palha da costa é uma planta originária da costa da África e serve de vestimenta deste Orixá, que passou a utilizá-la para esconder suas chagas dos olhares do demais Orixás. Por este motivo, atribui-se à palha da costa seca a virtude de proteger quem a usa. Na Umbanda, a palha da costa é confeccionada em forma de trança e usada no braço, na cintura e no tornozelo, enfeitada com búzios. Dependendo do local em que ela é usada, chama-se contra-egum, umbigueira ou tornozeleira.
O alimento natural de Omolu é a pipoca, uma semente que estoura sob a ação do calor e assume o aspecto de uma flor. Por esta característica de mudança, a pipoca é utilizada como transmutadora energética do Senhor Omolu. Em alguns rituais de Umbanda, a pipoca é aplicada nos sacudimentos[1] e ebós. No sacudimento, o paciente é colocado de pé, sobre um pano branco e o pai de santo passa punhados de pipoca dos seus ombros até os pés. Ao concluir, o pano branco é recolhido com as pipocas em seu interior e despachado no cemitério ou encruzilhada. O objetivo deste ritual é sempre promover a cura do corpo e o afastamento dos maus espíritos. Ebó é quando o sacudimento é complementado com oferendas para Omolu sozinho ou em conjunto com outros Orixás.
No ACVE, cultuamos Omolu no dia 2 de novembro, dia de finados, não como um símbolo de morte, mas de renascimento para a pátria espiritual, momento em que o ser liberta-se da densidade do corpo físico.
[1] Nota da Editora: O sacudimento é uma limpeza espiritual de grande eficácia.
Médium Danilo Vidal.
Banho de pipoca, que cura as chagas do corpo e da alma.
Meu velho Omolu, Atotô!
Atotô, Atotô, Obaluaiê!
Omolu, libertador de espíritos, orixá frequentemente associado à morte e ao cemitério e, talvez por isso, evitado e temido - da mesma forma que o assunto morte - por muitas pessoas que desconhecem sua forma de atuação. Essa vibração divina atua, em conjunto com Nanã Buruquê, na preservação da vida e na transição entre os planos material e espiritual.
A morte, nesse plano de vida em que nos encontramos, pode ser considerada como o mais forte e profundo processo de transmutação. Muito além de uma mera mudança de estado físico ou emocional, quando se morre para algo, há renascimento em direção ao oposto correspondente. Ou seria complementar? Quando o corpo físico morre, por exemplo, o espírito renasce para a “verdadeira vida”, volta para um plano em que se pode ter uma concepção ampliada sobre si mesmo, sobre a própria história como ser eterno, inserido num programa evolutivo.
Esse processo de morrer, então, é revestido de um poderoso poder transmutador, na medida em que possibilita profunda reflexão sobre o sentido da vida, sobre como se escolheu viver a oportunidade da reencarnação e quais consequências se pôde colher das escolhas realizadas. Mesmo quem nunca pensou sobre o sentido da vida, quando precisa encarar a possibilidade da morte, seja a própria ou a de alguém próximo, em alguma medida, faz uma autoanálise. Por isso, a morte dói tanto. Há a dor da saudade, que, com o tempo, passa a ter contornos nostálgicos de boas lembranças. E há a dor advinda da percepção de que a vida passa tão rápido e tanta coisa poderia ser realizada, tanta oportunidade poderia ser melhor aproveitada... E se eu tivesse feito essa ou aquela escolha? E se tivesse me colocado no lugar do outro e relevado, perdoado? E se eu tivesse olhado mais para as qualidades das pessoas e relevado as dificuldades? E se...? E se...? Muitos “e ses” atormentam a mente quando se pensa na morte própria ou de alguém próximo, ou até mesmo quando se lida diretamente com a morte.
A dor da morte, sob esse aspecto, parece proveniente, então, de um certo remorso por não ter notado antes como a singela experiência de cada dia, no fim das contas, compõe um conjunto de escolhas, que geram consequências e falam tanto sobre quem somos, sobre as reais motivações de nossas atitudes. A morte ou sua possibilidade nos coloca frente a frente com a nossa realidade interna, com a alegria e satisfação por tudo que de bom foi construído e com a sombra que tanto evitamos olhar. Nesse momento, é natural que se pense nas oportunidades de perdoar e pedir desculpas que passaram despercebidas, nas oportunidades de ser útil e dar melhor direcionamento para a vida que não foram aproveitadas, nas possibilidades de se colocar no lugar do outro e compreender mais, julgar menos.
É duro perceber que essas reflexões poderiam ter sido realizadas ao longo da vida. Talvez não todas, porque cada um tem seu tempo de despertar a consciência. Aí, então, está instaurado um necessário e profundo processo de autoconhecimento. Inevitável. Agora, não há como fugir de si mesmo, se esconder em vícios, distrair a mente com banalidades. Um espelho é colocado à nossa frente e somos obrigados a olhar para ele, a lançarmos olhar sincero para nós. Quanta vida há na morte! A morte, então, paradoxalmente, nos deixa mais vivos do que nunca para a vida que levamos. Tem algo mais transmutador, libertador?
Omolu, vibração intensa de transmutação, não poderia ter melhor associação do que a morte. Seu magnetismo atua no corpo físico e no espírito, no processo de encarne e desencarne, bem como na busca de cura e equilíbrio para lidar com a doença.
No processo de transição entre os planos espiritual e material, a atuação energética desse orixá, na reencarnação, ocorre diretamente na construção do corpo físico que comportará o espírito, na adaptação do perispírito – envoltório do espírito – para acoplar-se ao novo corpo, que, ao constituir instrumento de aprendizado para a vivência das experiências necessárias ao crescimento do espírito reencarnante, deverá ser adequado às suas necessidades. Enquanto isso, Nanã Buruquê atua equilibrando o emocional e promovendo o véu do esquecimento1.
No desencarne, o magnetismo de Omolu dá o direcionamento adequado a cada espírito, de acordo com o estado em que chega ao plano espiritual, de forma que possa ter condições de dar sequência ao processo evolutivo. Por essa atuação, de auxiliar e encaminhar a todos sem distinção, é chamado de orixá da misericórdia. Nessa recepção do espírito recém-chegado ao plano espiritual, também há atuação conjunta de Omolu com Nanã Buruquê. Antes de Omolu dar o direcionamento, o magnetismo decantador e transmutador de Nanã auxilia na limpeza dos corpos astrais e possibilita progressivo retorno da consciência do espírito para sua realidade eterna, retirando o véu do esquecimento.
Desse modo, podemos afirmar que o magnetismo de Omolu, juntamente com a vibração de Nanã Buruquê, atua como agente direto do cumprimento do carma individual. E essa função não se dá apenas no processo de encarne e desencarne de espíritos, mas também em espíritos encarnados, no processo de alívio e cura de doenças.
Novamente, a essência transmutadora de Omolu, como manifestação da misericórdia divina, envolve os seres, por mecanismos que levam à profunda reflexão sobre o sentido da vida, em verdadeiro processo libertador de consciência. Mas o que é a doença? Quando o corpo adoece, há muito tempo as mazelas já estavam instaladas no espírito, seja em decorrência de pensamentos e atitudes cultivados nessa vida ou em outras existências. A doença, sob essa perspectiva, como sempre diz vovó Benedita do Congo, é o processo em que se utiliza a matéria (o corpo) para expurgar as energias deletérias acumuladas no espírito ao longo da caminhada.
A vibração de Omolu auxilia, então, de acordo com a possibilidade de aprendizado de cada um, na transmutação energética necessária, para que o estado de equilíbrio se instaure, proporcionando harmonioso funcionamento do corpo, da mente e do espírito. Quando, por nossas limitações ou necessidades maiores de aprendizado, ainda não temos condições de ampliar nossas consciências e rever hábitos, atitudes e pensamentos, para que a cura se instale em sua integralidade, essa energia transmutadora de Omolu, ainda assim atua, atenuando dores e evitando agravamento de quadros que poderiam ser bem piores.
Assim como Nanã, a atuação energética de Omolu está ligada ao elemento terra, que também nos remete à energia de transmutação. Notem a simbologia disso: o local tido com ponto de força de Omolu é o cemitério, também conhecido como calunga pequena. No cemitério, os corpos são colocados embaixo da terra, após o desencarne. Embaixo da terra, a matéria se decompõe na matéria e a reintegra; e o espírito se liberta, após vivenciar a ação modificadora da passagem pela carne.
Por essas características da energia de Omolu, o elemento magístico mais popular a ele relacionado e muito utilizado nas oferendas feitas a esse orixá é a pipoca, geralmente estourada junto com areia. A pipoca representa a transformação do milho estourado e a areia remete ao elemento terra e a sua força transmutadora.
Aproveitemos essa maravilhosa energia para nos fortalecermos no processo de aprendizado e reforma íntima, para modificarmos nosso interior! Que as dificuldades que encontramos em nossa passagem pela carne sejam elementos ativadores de nosso florescimento! Banhemo-nos nessa energia curativa e restauradora e rendamos graças à misericórdia divina, sempre pronta a nos amparar e sustentar na caminhada!
Atotô, Omolu!
Nota: (1) Véu do esquecimento: é um esquecimento temporário das memórias relativas às vidas anteriores, pelo qual passam todos os espíritos antes de reencarnar.
Para todo efeito há uma causa de semelhante proporção. Conscientes ou não das consequências dos nossos atos, não é possível impedir a consumação da infalível lei de ação e reação. Essa regra é essencial para a harmonia da existência humana porque permite que falhas e desequilíbrios sejam corrigidos. Muitas vezes as consequências são transferidas para o corpo material. É uma breve oportunidade de reflexão dentro da eternidade do espírito. A casca carnal que reveste o sutil tecido espiritual permite-nos a manifestação dessa oportunidade de expiação. São as chamadas chagas do corpo. Doenças crônicas, deficiências físicas e mentais, limitações físicas, imperfeições orgânicas, perturbações da carne. São todas, na verdade, reflexo do espírito, e não há tempo exato para que elas se materializem no corpo. E nem para que sumam.
A história relatada em uma passagem do Evangelho, que descreve o caso da cega que queria ser curada por um espírito que se manifestava1, ajuda a entender essa situação. Como expiação, a cegueira não poderia ser curada, naquele momento, porque tiraria da cega a oportunidade de enxergar o que só era possível ser visto por intermédio daquela chaga. A expiação não estava completa. “A cegueira dos olhos é, muitas vezes, a verdadeira luz do coração”, disse o espírito. Esse evento reflete ainda o ensinamento da resignação pela expiação. Completando-se, a reação materializada, seja no corpo ou na consciência, é a chance da resignação. Uma chave que só pode ser encontrada pela compreensão. Omolú carrega em seu corpo as chagas e na mão a chave. A chave de Omolú abre a porta que separa o Orum (céu) e a Ayé (Terra). Senhor da vida e da morte, Omolú caminha por entre as consciências errantes. Percorre os mundos permitindo a libertação das expiações. E as chagas demonstram que o veículo carnal também é forma de expiação.
O leproso curado por Jesus2, por sua vez, havia cumprido sua expiação. Mas O Mestre alerta ao leproso curado que uma oferenda deveria ser feita após aquela cura. Iguais ao milho ao se transformar em pipoca, podemos curar nosso espírito e corpo, transformando nossa alma. Um dos símbolos de transformação e libertação do corpo e da alma é o cemitério, casa de Omulú. A oferenda proposta por Jesus serve para advertir que, depois de superada, uma lição deve ser lembrada e agradecida. Então, “Meu Pai, curai-me, mas fazei que a minha alma doente seja curada antes das enfermidades do corpo; que minha carne seja castigada se necessário, para que a minha alma se eleve para vós com a brancura que possuía quando a criastes” ³.
1 e 3 O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo VII – Bem-aventurados os que têm os olhos fechados, Allan Kardec.
2 Mateus, VIII: 1-4.