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22 de Outubro de 2026 · por Médium Maria Carolina Francisco

Oxum, a Doçura Firme

Oxum nos ensina que delicadeza não é sinônimo de fraqueza — há força naquilo que é suave, assim como há potência no rio que transforma a paisagem.

Oxum é a guardiã das águas doces, dos rios, das cachoeiras e das nascentes. Sua presença pode ser percebida no movimento delicado da água que contorna as pedras, encontra passagem entre os obstáculos e segue seu caminho sem perder sua essência. Na Umbanda, Oxum é associada ao amor, à beleza, à fertilidade, à prosperidade, à sensibilidade e ao cuidado. Sua energia nos ensina que delicadeza não é sinônimo de fraqueza. Há força naquilo que é suave, assim como há potência no rio que, com o tempo, transforma a paisagem.

Vivemos em uma sociedade que valoriza a pressa, a disputa e a agressividade. Oxum nos apresenta outro caminho: agir com firmeza sem perder a educação, defender nossas opiniões sem humilhar ninguém e buscar nossos objetivos sem abandonar a sensibilidade. Com equilíbrio e constância, podemos alcançar lugares que antes pareciam impossíveis.

A beleza de Oxum também precisa ser compreendida para além da aparência. Ela está presente na forma como tratamos as pessoas, cuidamos de nós mesmos e tornamos o ambiente ao nosso redor mais acolhedor. Oxum nos lembra que o amor-próprio nasce quando reconhecemos nosso valor, respeitamos nossos limites e compreendemos que não precisamos diminuir ninguém para perceber nossa própria luz.

É nesse sentido que podemos relacionar a força de Oxum ao sincretismo com Nossa Senhora Aparecida. A história religiosa e cultural do Brasil é marcada pelo encontro entre diferentes povos, tradições e formas de fé. Na Umbanda, o sincretismo também surgiu como forma de preservar cultos de origem africana diante da perseguição e da imposição religiosa. Assim, em muitas casas e tradições, Oxum é relacionada a Nossa Senhora Aparecida, símbolo de acolhimento, cuidado, esperança e proteção.

Essa relação não significa uma mesma figura religiosa, pois cada tradição possui sua própria história, símbolos e fundamentos. Porém, percebemos que o amor pode transbordar para além das fronteiras religiosas e criar caminhos de união e transformação. Nossa Senhora Aparecida, imagem encontrada nas águas, remete ao simbolismo da água doce: aquilo que acolhe, purifica, nutre, transforma e renova. Em Oxum, encontramos a força das águas que correm e acolhem; em Nossa Senhora Aparecida, muitos reconhecem a presença materna que ampara os que sofrem, fortalece os que perseveram e renova a esperança. Em ambas, podemos contemplar um amor que não se fecha em si mesmo, mas se derrama sobre a vida e alcança aqueles que dele necessitam.

A associação de Oxum com a prosperidade ultrapassa o desejo de acumular bens materiais. Prosperar é permitir que a vida se desenvolva com equilíbrio: ter saúde, cultivar relações respeitosas, desenvolver conhecimentos, trabalhar com dignidade, manter a esperança e compartilhar com o mundo aquilo que somos. Assim como a água alimenta a terra e sustenta a vida, aquilo que recebemos também deve circular de maneira consciente.

Prosperidade, portanto, não é acumular sem medida, mas reconhecer os recursos recebidos e saber empregá-los de maneira justa. O amor que transborda em caridade e assistência precisa ser vivido com responsabilidade. Ajudar não significa abandonar a si mesmo; amar não significa aceitar abusos; compartilhar não significa viver sem organização. Dentro de um terreiro, esses ensinamentos se manifestam na união, no respeito, na disciplina, no conhecimento e na disposição para servir.

Que Mamãe Oxum nos ensine a perseverar com ternura, cuidar com responsabilidade, receber com gratidão e repartir com generosidade. Que Nossa Senhora Aparecida, símbolo de fé, acolhimento e esperança, inspire-nos a reconhecer a força do amor que une, consola e transforma. Que suas águas doces lavem nossas tristezas, fortaleçam nossa caminhada e nos ensinem que a doçura também é coragem, fazendo transbordar em nossas palavras e atitudes o cuidado, o respeito, a união e a transformação em nossa comunidade.

<strong>Referências</strong><br>
1. SPECK, Larissa Santos. Guerreiras de Oxum. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Jornalismo) – Universidade do Sul de Santa Catarina, Palhoça, 2019.<br>
2. GONÇALVES, Kary Jean Falcão. Oxum, mãe da beleza: o poder da divindade de maior popularidade do panteão afro-brasileiro. Saber Científico, Porto Velho, v. 2, n. 1, p. 1-14, jan./jun. 2009.<br>
3. SANTUÁRIO NACIONAL DA UMBANDA. Oxum. Santo André, SP: Santuário Nacional da Umbanda, [s. d.].