22 de Outubro de 2026 · por Médium Carolina Banhos
O Tempo e a Paciência
Uma reflexão sobre a espera, a fé e o compasso espiritual na Umbanda.
Na Umbanda, aprendemos logo cedo que o tempo não se mede apenas nos ponteiros do relógio, mas no compasso sutil da evolução espiritual. A pressa é uma urgência humana, um reflexo da nossa ansiedade diante das incertezas da vida, mas o terreiro nos convida a silenciar esse ritmo acelerado para sintonizarmos com uma frequência muito mais profunda: a da paciência e da fé. Quando chegamos aos pés de um Preto Velho ou de um Caboclo, muitas vezes queremos respostas imediatas, soluções mágicas que apaguem a dor da noite para o dia, esquecendo que o vento que traz a brisa da cura é o mesmo que precisa de espaço para varrer os detritos acumulados na alma.
A paciência, nessa filosofia, não é passividade ou resignação cega; é uma virtude ativa de confiança. É a certeza de que os guias e Orixás estão trabalhando nos bastidores da nossa existência, muitas vezes em caminhos que nossos olhos materiais ainda não conseguem alcançar. Enquanto cruzamos os braços na corrente ou aguardamos a nossa vez no banco do terreiro, o tempo vai agindo como um ferreiro habilidoso, moldando nosso caráter e lapidando nossas arestas mais difíceis, preparando-nos para receber aquilo que pedimos no instante exato em que estamos prontos para sustentá-lo.
Cada espera na gira carrega um ensinamento oculto e transformador. O silêncio antes da consulta nos prepara para ouvir o que realmente precisamos escutar, e não apenas o que gostaríamos de ouvir para adular o nosso ego. Compreendemos, aos poucos, que as sementes plantadas na terra escura da dor precisam de tempo debaixo da superfície — no escuro, no silêncio e na aparente estagnação — antes de romperem o solo em direção à luz, firmes o bastante para suportar as intempéries do mundo exterior sem perder a essência.
Assim, olhar para o relógio deixa de ser uma angústia cotidiana e passa a ser um exercício consciente de entrega e amor-próprio. Afinal, na Umbanda, o tempo nunca se perde; ele se transfigura em aprendizado, em caridade e em paz interior. E quando finalmente entendemos que o universo conspira a nosso favor no ritmo da nossa maturidade espiritual, o coração se aquieta, a alma descansa e a certeza de que nunca estamos desamparados faz morada definitiva em nós.